O fim do mundo
Se o mundo acabasse hoje, por guerra ou não, eu queria sair para ver o mar. Nunca o vi, mas deve ser tão salgado, tão quente e frio. Se o mundo acabasse hoje, queria tanto poder plantar um jardim de flores amarelas. Elas são tão vivas; sei que, se morressem, seria a morte mais linda já vista. Eu não sei cuidar de plantas — todas as minhas morrem, mas morrem feias.
Se o mundo acabasse hoje, eu pintaria minha casa do verde mais vibrante e aconchegante possível. Olharia o sol das três da tarde batendo na parede até cochilar. Eu a limparia e acenderia um incenso de lavanda; são tão cheirosos que eu poderia acender um em cada ambiente por onde passo. Não pela energia, mas pelo bem-estar.
Se o mundo acabasse hoje, eu publicaria o livro que escrevi quando tinha treze anos. Ele é patético, previsível e melancólico, mas quem tem treze anos o entenderia. Ter treze anos é como abrir a porta de um lugar que não tem mais saída.
Se o mundo acabasse hoje, eu faria uma novena a Santa Teresinha e pediria para cair uma chuva de rosas, se não houvesse mais amanhã para nós. Rosas de todas as cores; depois de secas, cheiram tão bem.
Se o mundo acabasse hoje, eu pintaria com giz oleoso a vista do meu lugar favorito da cidade. Ia lá muitas vezes quando ainda era nova, mas só retornei há dois anos, com uma amiga que não entendeu o que aquele lugar significava para mim. Se o mundo acabasse hoje, eu iria ao Mercadão de BH e pediria uma porção de jiló frito. Eu comeria jiló todos os dias, se pudesse.
O mundo pode acabar ou não, e, mesmo assim, só eu sei que o que acaba são as minhas vontades. Nasci, cresci e vivo pensando que amanhã já vou morrer, sem ter vivido tudo isso.
De Vitória Mairinque, em Verde.


